

Há os que trabalham ali diariamente (defensores públicos, juízes, promotores) e os que estão de passagem (réus).
A câmera é utilizada como um instrumento que enxerga o teatro social, as estruturas de poder — ou seja, aquilo que, em geral, nos é invisível.
O desenho da sala, os corredores do fórum, a disposição das pessoas, o discurso, os códigos, as posturas — todos os detalhes visuais e sonoros ganham relevância. O
espaço, as pessoas e sua organização são registrados de maneira sóbria.
A câmera está sempre posicionada em relação à cena mas não se move dramaticamente, não busca a falsa comoção. Sinal de respeito, de não-exploração. No filme, não há entrevistas ou depoimentos, a câmera registra o que se passa diante dela.
Maria Augusta Ramos observa um universo institucional extremamente fechado e que raras vezes é tratado pelo cinema ficcional brasileiro. Seu filme é tão mais importante em função
de nossas limitações em termos de representação dos sistemas judiciais.
Em geral, nosso olhar é formado pela visão do cinema americano, os "filmes de tribunal". Justiça, sob esse aspecto, é um choque de realidade.
A cineasta vai acompanhar um pouco mais de perto uma defensora pública, um juiz/professor de direito e um réu.
Primeiro, a câmera os flagra no "teatro" da justiça; depois, fora dele, na carceragem da Polinter e na intimidade de suas famílias.
Com suas opções claras, que não são escondidas por sua opção pela sobriedade e pela simplicidade, Maria Augusta Ramos deixa evidente que, como os documentários, a justiça
está muito longe de ser isenta.
Como e para quem a justiça funciona no Brasil é a questão que se apresenta em seu filme,
sem respostas definitivas ou julgamentos preconcebidos.